Começar a trabalhar já não significa apenas conquistar o primeiro salário. Para muitos jovens, essa etapa também representa uma oportunidade de descobrir habilidades, ampliar a autonomia e entender como seus interesses podem se transformar em caminhos profissionais.

Essa mudança acontece em um momento de expansão da aprendizagem profissional no Brasil. Em 2025, 671,65 mil vínculos de aprendizes estavam ativos, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego. O número representa crescimento de aproximadamente 10,17% ante 2024. Por trás dos números, existe uma geração chegando ao ambiente corporativo com novas expectativas.

O que os jovens procuram no primeiro emprego?

Segundo Jéssica Sudré Barbosa, psicóloga e gestora do Núcleo Psicopedagógico do Saber, os jovens procuram muito além de uma primeira experiência no currículo. “Existe uma busca clara por significado, pertencimento e equilíbrio entre vida pessoal e profissional”, afirma.

Para a especialista, oportunidades capazes de oferecer aprendizado, acompanhamento e possibilidades de desenvolvimento ganham relevância. Ao mesmo tempo, relações respeitosas e culturas organizacionais coerentes com seus valores também entram nessa equação.

Essa visão aparece na experiência de Gustavo Gonçalves dos Santos, aprendiz da Toscana Telemarketing e Serviços e estudante de Engenharia da Computação. Para ele, a experiência profissional teve impacto até mesmo na maneira de se comunicar: “está me ajudando a perder a vergonha, falar melhor e me portar melhor.” O depoimento revela uma dimensão importante da aprendizagem: o crescimento profissional também pode provocar transformações pessoais.

Trabalho também é espaço para desenvolver confiança

No início da carreira, situações simples podem representar grandes desafios. Falar com colegas, responder a demandas, participar de reuniões ou lidar com responsabilidades novas exige segurança. Por isso, o ambiente profissional também funciona como espaço de aprendizagem social.

Gustavo atua com disparos de mensagens para diferentes setores de uma empresa prestadora de serviços ao banco Crefisa. A rotina trouxe contato com processos, equipes e responsabilidades, enquanto sua formação ampliou a compreensão sobre comportamento profissional.

Para Jéssica, essa vivência precisa ser acompanhada por lideranças preparadas para orientar, oferecer feedback e criar espaço para perguntas. “Compreender o jovem como um profissional em desenvolvimento exige direcionamento, escuta e suporte”, afirma. Essa abordagem também beneficia a organização. Afinal, profissionais em início de carreira precisam de clareza para entender expectativas e transformar orientações em prática.

Por que o pertencimento ganhou espaço nas empresas?

A relação entre jovens e trabalho também passa por identidade. Para essa geração, sentir-se parte da equipe pode influenciar o envolvimento com as atividades e a disposição para permanecer no ambiente.

Jéssica observa maior valorização de reconhecimento, transparência e feedbacks frequentes. Ela também aponta uma menor tolerância a ambientes rígidos e pouco inclusivos.

O tema ganhou relevância para empresas diante do crescimento da própria aprendizagem profissional. O MTE aponta um potencial nacional de 1,12 milhão de vagas para aprendizes, com aproximadamente 58% ocupadas em dezembro de 2025. Há, portanto, uma parcela significativa de jovens chegando ao mercado, enquanto organizações precisam desenvolver formas mais estruturadas de acolher esse público.

O que empresas podem aprender com os jovens?

A troca não acontece em uma única direção. Enquanto o jovem aprende processos, normas e responsabilidades, também leva novas referências para o ambiente corporativo.

Para Adam Silva, responsável por Cultura e DE&I do Outback, a parceria com o programa trouxe maior proximidade no acompanhamento dos jovens e mais assertividade nas contratações.

“Com alinhamentos mais frequentes, conseguimos conectar melhor os perfis dos candidatos e tivemos mais assertividade nas contratações”, afirma. Segundo Adam, cerca de 65% dos jovens são efetivados e seguem suas carreiras na empresa, conforme dado informado pela própria organização. O resultado mostra como uma experiência inicial pode ganhar continuidade quando existe alinhamento entre perfil, formação e cultura.

Aprendizagem profissional pode ser ponto de partida

A nova geração chega ao mercado com expectativas diferentes, mas também com disposição para construir caminhos próprios. Nesse contexto, o primeiro emprego pode representar muito além de uma experiência temporária.

Pode ser espaço para descobrir talentos, desenvolver confiança, construir relações e visualizar possibilidades futuras. Para Gustavo, essa transformação já acontece na prática. A experiência profissional ajuda a melhorar sua comunicação e postura, enquanto amplia sua visão sobre carreira.

O jovem não precisa chegar pronto. Precisa encontrar espaço para aprender, receber orientação e mostrar seu potencial e as empresas, por sua vez, podem transformar essa entrada em uma experiência capaz de formar profissionais mais preparados para o futuro.